O Mar – The ocean gives and takes.


Blue comes the flood

Do azul do mar salgado surgiu a vida e com ela veio a tempestade.

The ocean gives and takes.

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“Ondas”

Onde – ondas – mais belos cavalos

Do que estas ondas que vós sois?

Onde mais bela curva do pescoço

Onde mais bela crina sacudida

Ou impetuoso arfar no mar imenso

Onde tão ébrio amor em vasta praia?

Sophia de Mello Andersen

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Mar, metade da minha alma é feita de maresia.

O cheiro nu da maresia, perfume limpo do mar sem putrefacção e sem cadáveres, penetrava tudo.

Sophia de Mello Andersen

Poesia de José Alpedrinha – Dia Mundial da Poesia da Árvore e da Floresta


POESIA : TEIAS DE SILÊNCIO

De facto não é preciso ser nenhum dia em especial para se ler e ouvir boa poesia, sobretudo quando lemos algo que nos toca por dentro e nos faz reflectir sobre nós mesmos e os outros.

Aqui deixo um dos muitos poemas, de um grande amigo que partilha comigo a paixão pela fotografia e que sente o mundo vibrar e faz dele a sua poesia.

Este poema é sobre as “árvores” que são uma parte integrante da floresta e sem elas a vida ficaria mais complicada, e por isso também elas se perdem nas “teias do tempo” . São elas  o nosso segundo pulmão e sem elas os pássaros não fazem os ninhos para que o ciclo da vida não se interrompa…

 José  Alpedrinha do Livro  “Teias de Silêncio

CapaLivro Zé

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Foto de José Alpedrinha

Dia Mundial da Poesia –


POESIA PORTUGUESA – NATÁLIA CORREIA

Em 1975 Natália Correia fazia da sua arte poética uma arma de combate, objecto de arremesso. Nunca deixara de o ter feito; nunca deixaria de o fazer, de resto. Mas a sua tendência para a sátira e o ton jocoso,  fundada na tradição setecentista (que ela tanto amava) ganha, em alguma da sua poesia ‘cuspida’, um território único e inconfundível. Como tudo parecia tão miseravelmente sério quando a Natália escrevia assim; como tudo permanece tão actual neste poema, mais de três décadas depois…

 «Se por vezes a minha poesia retrocede para cuspir algumas pérolas na face dos tiranos não é que me comovam os ademanes de chuva dos oprimidos. As minhas causas são humanas, tão humanas quanto a recordação do homem não ser uma pausa de sangue na noite escamosa de um crocodilo chega até onde a palavra liberdade o estende num tempo sem medida.»

Pintura de  : Artur Bual ” Natália Correia “

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete

e uma alma para ir à escola

mais um letreiro que promete

raízes, hastes e corola.

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Dão-nos um mapa imaginário

que tem a forma de uma cidade

mais um relógio e um calendário

onde não vem a nossa idade.

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Dão-nos a honra de manequim

para dar corda à nossa ausência.

Dão-nos um prémio de ser assim

sem pecado e sem inocência

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Dão-nos um barco e um chapéu

para tirarmos o retrato

Dão-nos bilhetes para o céu

levado à cena num teatro.

 – – – – – – – – – – ♦ – – – – – – – – – – – –

Penteiam-nos os crânios ermos

com as cabeleiras dos avós

para jamais nos parecermos

connosco quando estamos sós.

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Dão-nos um bolo que é a história

da nossa historia sem enredo

e não nos soa na memória

outra palavra para o medo.

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Temos fantasmas tão educados

que adormecemos no seu ombro

somos vazios despovoados

de personagens de assombro.

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Dão-nos a capa do evangelho

e um pacote de tabaco

dão-nos um pente e um espelho

pra pentearmos um macaco.

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Dão-nos um cravo preso à cabeça

e uma cabeça presa à cintura

para que o corpo não pareça

a forma da alma que o procura

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Dão-nos um esquife feito de ferro

com embutidos de diamante

para organizar já o enterro

do nosso corpo mais adiante.

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Dão-nos um nome e um jornal

um avião e um violino

mas não nos dão o animal

que espeta os cornos no destino

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Dão-nos marujos de papelão

com carimbo no passaporte

por isso a nossa dimensão

não é a vida, nem é a morte.

(Poesia musicada e cantada,  por José Mário Branco)