Fragmentos de um Diário Gráfico 1983


Registo  p/ pintura a lápis de cera sobre papel 1983 . s/título .  Tema livre que veio a integrar uma futura série .

Foto tirada num café junto ao palácio do Porto, pelo Nicolau Tudela  ( 01.12.1983) – Série sobre viagem ao Porto  com Pedro Morais, Jorge Colombo e Nicolau Tudela . Exposição de Pedro Tudela .

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Bernardo Sasseti ( 1970-2012) – O Último Adeus…


Faz no próximo mês um ano que estive à conversa com o Bernardo Sasseti  um pouco antes do período de aquecimento para o espectáculo de bailado que se iria desenrolar no Largo de S. Carlos pela CNB, Companhia Nacional de Bailado  ” Uma Coisa em forma de assim…” pelos  Coreógrafos : Clara Andermatt, Francisco Camacho, Benvindo Fonseca, Rui Lopes Graça, Rui Horta, Paulo Ribeiro, Olga Roriz, Madalena Victorino e Vasco Wellenkamp que estiveram todos presentes.

Recordo-me que em pouco mais que cinco minutos, enquanto ele fumava um cigarro, um pouco a queimar o tempo pelo nervosismo  de entrar em palco, me falava que tinha outra paixão – a fotografia, mas que nem sempre tinha tempo. Eu respondi-lhe que sabia dessa sua paixão e que também sofria do mesmo mal, mas que estava a tentar organizar-me. Falamos ainda mais uns minutos e assim que subiu ao palco para fazer o seu aquecimento disse-me para o fotografar à vontade. Aí percebi quem estava nervoso era eu. Não estava nada à espera que ele fosse tão directo e generoso. Confesso que fiquei um pouco desarmado, mas mesmo assim acabei por fazer algumas fotos. No final do ensaio ainda ficou por ali e perguntou-me – então que tal…estão bem, ao que lhe respondi que sim, mostrando-lhas no display da máquina. De seguida disse, fique com o meu email e mande-me as que estiverem boas. Claro, que lhe enviei também as do espectáculo. E por aí ficamos, apagou o cigarro um pouco apressado e despediu-se. Bem, agora tenho que ir para dentro. Adeus, e estendeu-me a mão, ao que  respondi um pouco a rir – “muita merda para si”. Ele deixou sair um sorriso um pouco rasgado franzindo de seguida o sobrolho, acusando a responsabilidade de se ir expor perante uma plateia de algumas milhares de pessoas, que estavam ali não só para ver a CNB, que é uma excelente Companhia de Bailado, mas também para o ouvir. E isso, ele sabia-o.

Adeus Bernardo…e obrigado

Mensagem do DIA MUNDIAL DO TEATRO 27-03-2012


Mensagem do Dia Mundial do Teatro 2012 por John Malkovich

Fico honrado por o ITI – Instituto Internacional do Teatro – me ter pedido para fazer este discurso comemorativo do 50º aniversário do Dia Mundial do Teatro.

Vou então dirigir estes breves comentários aos meus companheiros de teatro, meus pares e meus camaradas.

Que o vosso trabalho possa ser apaixonante e genuíno.

Que ele possa ser profundo, comovente, contemplativo, e único.

Que ele nos ajude a reflectir sobre a questão do que significa ser humano, e que esta reflexão seja guiada pelo coração, sinceridade, candura, e charme.

Que consigam ultrapassar a adversidade, a censura, a pobreza e o niilismo, que muitos de entre vós serão obrigados a enfrentar.

Que sejam abençoados com o talento e rigor para nos ensinar sobre o batimento do coração humano, em toda a sua complexidade, e com a humildade e curiosidade que faça disto o trabalho da vossa vida.

E que o melhor de vós próprios – porque só poderá ser o melhor de vós próprios , e mesmo assim apenas em raros e breves momentos – consiga definir a mais fundamental questão: ‘como vivemos nós’ ?

Desejo sinceramente que o consigam.

John Malkovich

Luis Miguel Cintra fala sobre a peça “Fingido e Verdadeiro” onde coloca o actor face à sua fé dentro e fora do palco .  ( a não perder)

FINGIDO E VERDADEIRO ou o martírio de S.Gens, actor

Adaptação de Luis Miguel Cintra de Lo Fingido Verdadero de Lope de Vega 

Tradução da peça original Luís Lima Barreto

Adaptação e Encenação Luis Miguel Cintra

Cenário e figurinos Cristina Reis

Desenho de luz Daniel Worm d’Assumpção

Actores Cleia Almeida, Dinis Gomes, Duarte Guimarães, José Manuel Mendes, Luís Lima Barreto, Luis Miguel Cintra, Miguel Melo, Ricardo Aibéo,  Sofia Marques, Tiago Manaia, Vítor de Andrade,  Rubén Ajo e Ángel Martin (bolseiros do Programa Leonardo da Vinci da Comunidade Europeia).

Equipa técnica

Assistente de encenação e contra-regra Manuel Romano

Assistentes para o cenário e figurinos Linda Gomes Teixeira e Luís Miguel Santos

Director técnico Jorge Esteves

Construção e montagem de cenário João Paulo Araújo e Abel Duarte
Montagem e operação de luz e som Rui Seabra

Guarda-roupa, costureira e conservação do guarda-roupa Maria do Sameiro Vilela

Assistente de produção Tânia Trigueiros

Secretária da Companhia Amália Barriga

Cartaz Cristina Reis

Uma desconstrução da peça de Lope de Vega Lo Fingido Verdaderofragmentando-a, reduzindo as personagens, inserindo textos das fontes literárias a que Lope recorreu, e citações de Santo Agostinho, Tertuliano, Louis Jouvet e Jean Genet. O texto original é um exemplo particularmente interessante na produção do autor das comédias de vida de santos. A acção passa-se no século III, no tempo do imperador Diocleciano, e trata-se do mártir S. Gens, um actor que ao representar, a pedido do Imperador, a figura de um Cristão, se converte, e em consequência disso é condenado à morte. A peça de Lope de Vega, apesar de muito pouco representada nos nossos dias, é considerada sempre como uma peça fundamental no conjunto da obra do autor na medida em que, através da própria linguagem teatral, constitui uma autêntica segunda versão da arte poética contida no texto teórico: Arte Nova de Fazer Comédias. O espectáculo pretende ser um divertimento, jogo irónico sobre a Verdade e a Mentira, a Vida e a Ficção, sobre o Actor, fechando uma série de espectáculos que a Cornucópia tem vindo a apresentar em volta do mesmo tema.

Fonte: Teatro Cornucópia / Luis Miguel Cintra

Robert Wyatt


Robert  Wyatt

” Através da música as pessoas podem ser o que quiserem, manifestar o que lhes apetece. É um terreno de fantasia. Não existe nada mais verdadeiro do que a fantasia, porque é um lugar livre, sem restrições. A música liga as pessoas. Ultrapassa barreiras. Através dela é possível ao músico manifestar uma verdade que colectivamente é desejada, mas ainda não expressada. Não são os políticos que iniciam as mudanças. Quando muito respondem às mudanças desejadas por nós. É preciso não perder de vista que existem muitas opções de vida. São os  artistas, não os políticos, que têm essa capacidade de nos mostrar que há outras visões do mundo.”

Robert Wyatt – 2007 em entrevista ao Público

” O sentimento impera na Europa. Já tivemos o medo do comunismo ou medo do terrorismo. Agora temos outro medo. O medo da perda do emprego e daquilo que achamos que o capitalismo garante aos cidadãos- e que é cada vez menos. A música, a arte, a cor do céu, o afecto entte as pessoas, está aí para o provar. A crise não é económica. É o nosso estilo de vida que está em causa. Mas apesar de todos os seus problemas, o mundo continua a ser um lugar óptimo.”

Robert Wyatt – 2010 em entrevista ao Público

Dia Mundial da Poesia –


POESIA PORTUGUESA – NATÁLIA CORREIA

Em 1975 Natália Correia fazia da sua arte poética uma arma de combate, objecto de arremesso. Nunca deixara de o ter feito; nunca deixaria de o fazer, de resto. Mas a sua tendência para a sátira e o ton jocoso,  fundada na tradição setecentista (que ela tanto amava) ganha, em alguma da sua poesia ‘cuspida’, um território único e inconfundível. Como tudo parecia tão miseravelmente sério quando a Natália escrevia assim; como tudo permanece tão actual neste poema, mais de três décadas depois…

 «Se por vezes a minha poesia retrocede para cuspir algumas pérolas na face dos tiranos não é que me comovam os ademanes de chuva dos oprimidos. As minhas causas são humanas, tão humanas quanto a recordação do homem não ser uma pausa de sangue na noite escamosa de um crocodilo chega até onde a palavra liberdade o estende num tempo sem medida.»

Pintura de  : Artur Bual ” Natália Correia “

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete

e uma alma para ir à escola

mais um letreiro que promete

raízes, hastes e corola.

                       – – – – – – – – ♦ – – – – – – – – –                     

Dão-nos um mapa imaginário

que tem a forma de uma cidade

mais um relógio e um calendário

onde não vem a nossa idade.

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Dão-nos a honra de manequim

para dar corda à nossa ausência.

Dão-nos um prémio de ser assim

sem pecado e sem inocência

 – – – – – – – – – – – ♦ – – – – – – – – – – –

Dão-nos um barco e um chapéu

para tirarmos o retrato

Dão-nos bilhetes para o céu

levado à cena num teatro.

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Penteiam-nos os crânios ermos

com as cabeleiras dos avós

para jamais nos parecermos

connosco quando estamos sós.

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Dão-nos um bolo que é a história

da nossa historia sem enredo

e não nos soa na memória

outra palavra para o medo.

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Temos fantasmas tão educados

que adormecemos no seu ombro

somos vazios despovoados

de personagens de assombro.

 – – – – – – – – – – ♦ – – – – – – – – – – – –

Dão-nos a capa do evangelho

e um pacote de tabaco

dão-nos um pente e um espelho

pra pentearmos um macaco.

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Dão-nos um cravo preso à cabeça

e uma cabeça presa à cintura

para que o corpo não pareça

a forma da alma que o procura

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Dão-nos um esquife feito de ferro

com embutidos de diamante

para organizar já o enterro

do nosso corpo mais adiante.

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Dão-nos um nome e um jornal

um avião e um violino

mas não nos dão o animal

que espeta os cornos no destino

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Dão-nos marujos de papelão

com carimbo no passaporte

por isso a nossa dimensão

não é a vida, nem é a morte.

(Poesia musicada e cantada,  por José Mário Branco)

A Poesia fica o Poeta parte – Rui Costa (1973 – 01.2012 )


Poema inútil com montanha

Vejo a montanha à minha frente pousada

Sobre a água sempre verde, e penso na inutilidade

De tudo o que ela é, e na inutilidade de estar pensando nisto,

Quando um pensamento inútil me sugere

Que a montanha pode ser

Um pormenor pensado por ela

Na paisagem do meu próprio peensamento, para

Com isto me levar a pensar sobre pensamentos,

E não sobre montanhas, ficando ela, como antes,

Pousada na água sempre verde, sem ser

Pensada por ninguém.

Rui Costain A Nuvem Prateada das Pessoas Graves (Edições Quasi) 2005

Com “A Nuvem Prateada das Pessoas Graves”, que publicou em 2005 nas Quasi Edições,ganhou o Prémio de Poesia Daniel Faria e, em 2007, recebeu o Prémio Albufeira de Literatura pelo romance “A Resistência dos Materiais”.

Também em 2007, traduziu o livro de poesia “Só Mais Uma Vez”, do poeta espanhol Uberto Stabile, para a colecção Palavra Ibérica, e em 2008 traduziu “Quarto Com Ilhas”, do poeta espanhol Manuel Moya, para a mesma colecção, na qual publicou, em 2009, “O Pequeno-Almoço de Carla Bruni”.

No mesmo ano, lançou ainda “As Limitações do Amor São Infinitas”, pela editora Sombra do Amor.

Co-organizou a Primeira Antologia de Microficção Portuguesa (Exodus, 2008) e colaborou em diversas publicações, como “Poema Poema – Antologia de Poesia Portuguesa Actual (Huelva, 2006); “A Sophia” – Homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen (Caminho, 2007); “Um Poema para Fiama” (Labirinto, 2007); “Sulscrito” – Revista de Literatura; Revista Big Ode e Revista Piolho nº 2.

Em 2010, estava a trabalhar numa tese de doutoramento em Ciências da Saúde sobre o discurso e experiências de transformação do sector da saúde em Portugal e no Brasil.