Janela da Alma – Evgen Bavcar


“O essencial é invisível aos olhos, ele está na alma.”

Saint-Exupéry

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Evgen Bavcar nasceu numa cidade da Eslovênia em 1946, sendo naturalizado mais tarde cidadão francês, e ainda criança sofreu dois acidentes que lhe roubaram a visão.

O que a fotografia torna acessível não é um retrato fiel da realidade, mas sim uma “expressão verdadeira” do encontro com outra realidade imbuída nas imagens do (in) visível.
Da mesma forma que outras artes visuais, a fotografia não evoca nada, pelo contrário:
(…) dá existência visível ao que a visão profana crê invisível, faz que não tenhamos a necessidade de “sentido muscular” para ter a voluminosidade do mundo. Essa visão devoradora, para além dos “dados visuais”, dá acesso a uma textura do Ser da qual as mensagens sensoriais discretas são apenas as pontuações ou as cesuras, textura que o olho habita como o homem sua casa. (Merleau-Ponty, 2004: 20)

Para mim falar de Evgen Bavcar enquanto fotógrafo não é difícil, se nos limitarmos a olhar só para as suas fotos. O mais surpreendente é quando conhecemos o seu percurso e a sua falta de visão, e aí nos interrogamos como é possível ele ver para além da máquina. Pelas fotos que são divulgadas podemos ver que são de muita qualidade, quer nas composições mais simples passando pelas mais elaboradas.

Evgen não fotografa com a vista mas com a “alma”, ou como ele próprio lhe gosta de chamar,  o “terceiro olho”. Daí que a “janela da alma “ nunca está fechada para o mundo, por ela ele vê e sente o que o rodeia.

A ausência da visão física não constitui um impedimento de um “olhar” para o mundo e nem cessa a produção de imagens. Ao reconhecer como Merleau-Ponty (2004), que o corpo não está na ignorância de si, não é cego para si, ele erradia de um si, vislumbra-se a arte fotográfica a partir de uma instância do real possível, uma realidade impressa subjectivamente, atravessada por unidades de sentido imersos e submersos no “tecido do mundo”.

“Fiquei cego em consequência de dois acidentes. Sou inválido de guerra. Primeiro, um acidente me atingiu o olho esquerdo. Depois, um detonador de minas atingiu-me o olho direito. Sou realmente uma vítima de guerra, posterior à guerra.”

Cerca de quatro anos depois dos acidentes, Evgen teve o seu primeiro contacto com uma câmera fotográfica e pode perceber que a sua deficiência não o tornava ineficiente. O que mais me impressiona em Evgen, além da sua qualidade brilhante como fotógrafo, é a sua sensibilidade e o facto de ele falar sobre os motivos pelos quais fotografa e o que fotografa.

(…) Já era cego quando tirei minhas primeiras fotos, no colégio. Na época, minha irmã tinha comprado uma Zork 6, uma máquina russa… Ela me emprestou a máquina, e tirei algumas fotos de colegas da escola. Depois, levei o filme a um fotógrafo, que já morreu. Ele o revelou, e aconteceu o milagre: lá estavam as imagens. Fiquei chocado e surpreso. Disse a mim mesmo “não vejo as imagens e, contudo, sou capaz de fazê-las”. (Janela da Alma, 2002)

“Isso é muito importante. Não devemos falar a língua dos outros, nem utilizar o olhar dos outros, porque, nesse caso existimos através do outro. É preciso tentar existir por si mesmo.”

Evgen explica no documentário como ele supunha ter  fotografado o invisível mostrando uma foto que tirou da sua sobrinha Veronica num campo, ele disse que pediu para que ela corresse e saltasse com um sininho para ele a poder “ver” e ouvir.

Sobrinha Veronique

Sobrinha Veronique

Fotografias  do invisível :

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Evgen no filme “Janela da Alma”  conclui o seguinte :

-Para mim, a linguagem e imagem estão ligadas, isto é, o verbo é cego, mas é o verbo que o torna visível. Sendo cego, o verbo torna visível, cria imagens… graças ao verbo, temos as imagens. Actualmente, as imagens se criam por si mesmas, deixaram de ser o resultado do verbo (…).
É preciso que haja um equilíbrio entre o verbo e a imagem. Por exemplo, Michelangelo não viu Moisés! Ele não foi segui-lo no Monte Sinai. Não viu como o Decálogo foi lançado sobre o bezerro de ouro. Mas leu o texto.

In (Janela da Alma, 2002)

Fontes:  (1) Merleau-Ponty, Fenomologia da Percepção ( 1999) ; 
–  Elida Tessler, Evgen Bavcar :Silêncios , Cegueiras e alguns Paradoxos quase invisíveis ;
–  Naves, Maira Allucham : A Produção de Sentidos na Arte Fotográfica de Evgen Bavcar ;
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