Dia Mundial da Poesia –


POESIA PORTUGUESA – NATÁLIA CORREIA

Em 1975 Natália Correia fazia da sua arte poética uma arma de combate, objecto de arremesso. Nunca deixara de o ter feito; nunca deixaria de o fazer, de resto. Mas a sua tendência para a sátira e o ton jocoso,  fundada na tradição setecentista (que ela tanto amava) ganha, em alguma da sua poesia ‘cuspida’, um território único e inconfundível. Como tudo parecia tão miseravelmente sério quando a Natália escrevia assim; como tudo permanece tão actual neste poema, mais de três décadas depois…

 «Se por vezes a minha poesia retrocede para cuspir algumas pérolas na face dos tiranos não é que me comovam os ademanes de chuva dos oprimidos. As minhas causas são humanas, tão humanas quanto a recordação do homem não ser uma pausa de sangue na noite escamosa de um crocodilo chega até onde a palavra liberdade o estende num tempo sem medida.»

Pintura de  : Artur Bual ” Natália Correia “

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete

e uma alma para ir à escola

mais um letreiro que promete

raízes, hastes e corola.

                       – – – – – – – – ♦ – – – – – – – – –                     

Dão-nos um mapa imaginário

que tem a forma de uma cidade

mais um relógio e um calendário

onde não vem a nossa idade.

– – – – – – – – – – – ♦ – – – – – – – – – – –

Dão-nos a honra de manequim

para dar corda à nossa ausência.

Dão-nos um prémio de ser assim

sem pecado e sem inocência

 – – – – – – – – – – – ♦ – – – – – – – – – – –

Dão-nos um barco e um chapéu

para tirarmos o retrato

Dão-nos bilhetes para o céu

levado à cena num teatro.

 – – – – – – – – – – ♦ – – – – – – – – – – – –

Penteiam-nos os crânios ermos

com as cabeleiras dos avós

para jamais nos parecermos

connosco quando estamos sós.

– – — – – – – – – – – ♦ – – – – – – – – – – – –

Dão-nos um bolo que é a história

da nossa historia sem enredo

e não nos soa na memória

outra palavra para o medo.

 – – – – – – – – – ♦ – – – – – – – – – – –  –

Temos fantasmas tão educados

que adormecemos no seu ombro

somos vazios despovoados

de personagens de assombro.

 – – – – – – – – – – ♦ – – – – – – – – – – – –

Dão-nos a capa do evangelho

e um pacote de tabaco

dão-nos um pente e um espelho

pra pentearmos um macaco.

 – – – – – – – – – – ♦ – – – – – – – – – – – – –

Dão-nos um cravo preso à cabeça

e uma cabeça presa à cintura

para que o corpo não pareça

a forma da alma que o procura

– – – – – – – – – – – ♦ – – – – – – – – – – – – –

Dão-nos um esquife feito de ferro

com embutidos de diamante

para organizar já o enterro

do nosso corpo mais adiante.

 – – – – – – – – – – ♦ – – – – – – – – – – –

Dão-nos um nome e um jornal

um avião e um violino

mas não nos dão o animal

que espeta os cornos no destino

 – – – – – – – – – – – ♦ – – – – – – – – – – – –

Dão-nos marujos de papelão

com carimbo no passaporte

por isso a nossa dimensão

não é a vida, nem é a morte.

(Poesia musicada e cantada,  por José Mário Branco)

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