FOTOGRAFIAS INÉDITAS | ROSA REIS | SUSANA PAIVA


Este slideshow necessita de JavaScript.

Bloco103  | 02 de Fevereiro 2012 | 17 de Março

FOTOGRAFIAS INÉDITAS | ROSA REIS | SUSANA PAIVA

Diálogos na  Bloco103 com as autoras | Dia 03 de Fevereiro  e  09   de   Março  | 18h00 / 20h00

A segunda exposição que a Bloco 103 apresenta articula o trabalho de duas fotógrafas profissionais, Susana Paiva e Rosa Reis, ambas com carreiras bem firmadas e amplamente reconhecidas no âmbito da fotografia documental e de autor.

Tendo em conta o percurso e a obra de ambas, não deixa de surpreender esta associação. Um breve olhar detecta uma certa uniformidade nas obras seleccionadas para esta mostra: uma mesma temática – a urbanidade e a arquitectura; a presença da cor, o tratamento das fotografias, suas dimensões e porte. A um segundo olhar não escapam as dissemelhanças, mas aí residem, justamente, as chaves de descodificação das obras de cada uma e a decifração daquilo que permite a sua apresentação conjunta.

Susana Paiva procura estabelecer um estado de inspiração mental como norma, busca criar obras que cultivam o mistério, produzem curiosidade e estimulam a acção criativa por parte do espectador. As suas fontes de inspiração são sobretudo internas e o seu método de trabalho implica uma postura de viajante incansável, quase nómada. Esta artista vem fotografando o meio teatral há já duas décadas, percorrendo um trajecto artístico (não por acaso com origem na escrita) que lhe permitiu adquirir evidentes competências no que à volumetria e à utilização da luz diz respeito, denotando uma grande influência da cenografia. Nos seus trabalhos mais recentes procura desconstruir a realidade através da desmaterialização do visível, levando ao extremo a sua capacidade de manipular a luz e a cor. As obras que aqui apresenta, da série” Ceci n’est pas “ (cujo título alude à obra de Magritte e à ideia de que a representação não é a coisa em si) exibem atmosferas urbanas que se agigantam em torno de vultos ou que denunciam a presença do humano. As personagens que habitam aquilo que afinal são as suas paisagens inventadas, vão ou vêm de algum lugar, quase deambulam por ali, o que acentua a dimensão imaterial das suas obras.

As fontes de inspiração de Rosa Reis são maioritariamente externas, são produto da sua profissão, o seu método está estreitamente ligado às encomendas que recebe e ao ambiente em que quotidianamente se move. Três décadas decorreram desde que esta artista se iniciou na prática da fotografia documental em ambientes laborais e industriais, sendo paradigmático o excelente trabalho que desenvolveu na Lisnave, no período que antecedeu o encerramento daquela instituição. As obras que agora apresenta foram realizadas no decurso da edificação da Fundação Champalimaud, em Belém, e seguem a sua habitual prática do “momento decisivo” – são fotografias directas, executadas com precisão, que concentram toda a atenção em momentos determinantes. As suas imagens mostram-nos espaços em construção, denotam grande cuidado com a perspectiva e uma apetência pelas volumetrias. A realçar a materialidade das suas obras, as figuras humanas, embora em segundo plano (o que não é habitual no seu trabalho) parecem ter uma função e um propósito.

Tendo em conta estas diferenças, o que há em comum entre a imaterialidade das imagens que Susana Paiva produz e a materialidade das imagens de Rosa Reis? Ambas representam a realidade, seja esta transformada ou repetida, porque toda “a arte é um facto mental, ligado ao conhecimento das coisas e dos meios da comunicação visual. As coisas não são mais do que a realidade na qual todos vivem, os meios são instrumentos que permitem tornar visível aquilo que o cérebro capta a partir dos estímulos externos”. (Bruno Munari, Design e Comunicação Visual, 1968)”.

Ana Pinheiro Torres
Janeiro de 2012

Foto : Rosa Reis

Foto: Rosa Reis

O que procuramos aqui? O que encontramos aqui?

O elo entre a Bloco103, Rosa Reis e Susana Paiva, advém da seriedade no trabalho criativo desenvolvido por estas autoras. O seu pêndulo reside na construção no tempo e com o tempo. A procura contínua, sem cedências, confere identidade.

Os trabalhos agora apresentados são manifestações de uma vontade própria de operar na realidade. Fazendo uso de uma lente, e através do olhar que se move numa construção interior, as autoras comunicam-nos a leitura da sua pauta processual.

No caso de Rosa Reis, dos inúmeros méritos que podemos extrair na leitura do seu trabalho, está esta capacidade de permanecer e, na aridez que a permanência invoca, conseguir descer ao fundo, ao encontro último com o seu objecto, e sobre ele solicitar um olhar que tanto nos pode suscitar um cunho antropológico como ecoar uma extrema contemporaneidade.

O trabalho agora apresentado resulta do processo construtivo do edifício da Fundação Champalimaud. Traduz dois anos de percepção e apropriação do espaço desabitado. A coerência será sempre um reflexo do seu modus operandi. Rosa Reis é uma fotógrafa, com o correcto peso que transportam as palavras.

Num breve apontamento ao percurso de Susana Paiva, somos levados a expressar que não importa tanto o ponto de partida quanto o ponto de chegada. A sua procura é avassaladora. Susana Paiva fotógrafa, é Susana Paiva trabalhadora. Una. Viajante incansável, prossecutora de projectos.

O conceito abordado por Susana Paiva transporta-nos, induz a entrar num espaço etéreo, cruza o sonho em torno de uma desconstrução da realidade, e desafiando os sentidos projecta na retina uma nova iconografia sobre Barcelona e Paris.

Para Bloco103 é uma honra poder apresentar as duas fotógrafas e o conjunto de trabalhos inéditos, nesta sua primeira exposição dedicada à fotografia.

Miguel Justino | Bloco103

Foto: Susana Paiva

À janela do quarto só seu – D’o macramé

Para onde corre a Fotografia? Abstração sentimental, ficção de um mundo novo ou reafirmação mimética?
A democratização diminui a especificidade do meio fotográfico? E a manipulação digital, que papel ocupa neste cenário?
Qual é a verdade da Fotografia? A sua única e indivisível natureza, agora?

O estudo do pictorialismo fotográfico na contemporaneidade é pertinente pela busca de definição, balizada entre a natureza mecanicista e artística. E pela ponte entre um movimento que nasce como resposta ao amador e o posicionamento da fotografia artística agora, face ao formato digital, democraticamente popular.

O meio pode ser pensado de forma tecnológica, afirma Victor Burgin e fazer uma imagem é efectuar um conjunto de opções, tornando-se o conteúdo do trabalho a súmula das escolhas operativas e de sequenciação, numa atitude – formalismo- que afirma advir do Modernismo Greenbergiano.

Burgin alude também ao pós-modernismo fotográfico, afirmando que a fotografia permite-nos uma visão ilusória de aspectos do mundo em frente à câmara, conduzindo-nos a considerações sobre representação e narrativa. Pertencendo a Fotografia, segundo Geoffrey Batchen a todas as instituições e disciplinas menos a si própria.

Michael Fried desenvolve um outro conceito, Near Documentary, numa linha entre a tradição pictórica do tableau form e a fotografia documental contemporânea, num processo não mimético mas de encenação. Contribuindo para a artisticidade do objecto fotográfico tal como as impressões em escalas não análogas à realidade.

A imagem digital tem espaço quando alcança o futuro, ficção científica tornada já, numa estética positivista de classificação, factual e define-se amadora quando reitera os postulados pictorialistas num discurso subjectivo e poético.

O único reduto consensual: a impressão jacto de tinta em papéis fine-art, com certificado de 100 anos de garantia e que nos leva ao início, para além da busca ontológica, no balanço entre a natureza mimético-mecânica e a artisticidade dos seus utilizadores, como olhamos a plena democratização da criação.

Ana Pereira 2012

Bibliografia:
BATE, David (2009), Photography the key concepts. New York: Berg.
BATCHEN, Geoffrey (1997), Burning with desire- The conception of photography. Cambridge: Mitt Press.
FRIED, Michael (2008), Why photography matters as art as never before. New Haven-London: Yale University Press.

Foto: Susana Paiva

Fotos inauguração : J. MACHADO

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s