Sem Pés nem Cabeça & Afrodite (…nada se perde, tudo se transforma.)


“O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.                                                     O que há é pouca gente para dar por isso (…)” 

(Álvaro de Campos)

SEM PÉS NEM CABEÇA

Quando se diz que  uma coisa não tem pés nem cabeça, então quer dizer essa coisa não faz qualquer sentido, não tem nexo.

As fotos acima são testemunho de um acto de puro vandalismo, pois trata-se de uma obra escultórica entre outras que foi destruída por jovens adolescentes referenciados como “crianças de risco”, que ficaram à guarda da Segurança Social numa Instituição de Solidadriedade Social (IPSS). De referir que essa instituição tem um pequeno jardim cuja traça é de modelo francês, ornamentado por figuras míticas gregas e foram todas destruídas/mutiladas sem excepção. Sabe-se  que se tratam de  esculturas do primeiro quartel do século XX, e que a da foto  ficou literalmente sem pés nem cabeça.

MUTILAÇÕES NA HISTÓRIA & NUM  JARDIM  PERDIDO

As mutilações não são casos único na História, os romanos fizeram aos gregos, os franceses por onde passaram deixaram a sua marca, os alemães a mesma coisa, etc. A história repete-se. No caso dos romanos, a escultura que mutilaram e que permaneceu em maior mistério foi a Afrodite. A história encarregou-se de lhe fazer justiça, não pela forma mas pelo “sentido” que o mito em si mesmo transporta. Um modelo de canone, e  de harmonia que foi adquirindo ao longo dos séculos.

É caso para nos questionarmos o que seria da Vénus de Milo se tivesse os braços, deixava de ter o sentido estético que hoje lhe damos, não quero dizer com isto que faça sentido destruir uma obra de um artista menor para que futuramente a sua obra ganhe um novo “sentido”, com maior equilibrio, que na minha opinião ficou é mais equilibrada do que se tivesse os braços. Há simulações feitas em computador e a figura perde a “beleza”    e o encanto porque nasce nela algo que a destabiliza. Sei que parece um paradoxo, mas neste caso é preferível que se respeite os acontecimentos da História. Está mutilada, fica mutilada, conforme está.

Uma Segunda Pele…

No caso das esculturas mutiladas no Jardim da IPSS, o tempo dirá. Uma mutilação é sempre uma mutilação, por mais que se restaure e disfarce as fissuras, o acto está lá. É como uma pele.Tem uma história, uma carga simbólica. Não há remendo que possa apagar semelhantes actos de  vandalismo. As obras de arte são isso mesmo, são o testemunho de uma época.

Não sei precisar qual foi o filósofo que dizia que  ” A  arte é o que nos torna Humanos e diferentes dos Animais”.

A Vénus de Milo representa  a harmonia que a arte grega veio instituir como um canone de beleza e proporção estética. É uma estátua que representa a deusa grega Afrodite, deusa do amor e da beleza física, tendo ficado no entanto mais conhecida pelo seu nome romano, Vênus. É a mais importante das obras mutiladas.

O seu provável autor é Alexandre de Antióquia. Segundo o Oxford Dictionary of Art, é a estátua antiga mais famosa do mundo. Pertence ao acervo do Museu do Louvre, Paris.

SANDRO BOTTICELLI : RETRATOS DE  VÊNUS

Ao referir o exemplo da mutilação de Afrodite ( gregos) ou Vênus de Milo ( romanos), lembrei-me precisamente que há  quatro anos por esta altura tive o privilégio de poder revisitar pela segunda vez o Museu da “Galeria Uffizi” em Florença, e poder ver ao vivo as célebres pinturas de Vênus do genial Sandro Botticelli.

Sempre que se faz uma abordagem às Vênus de Botticelli é inevitável não se falar da Afrodite do Louvre, como paralelismo entre os canones estéticos que as separam. Visitar um Museu italiano e poder ser “guiado” por um mestre  em História de Arte é sempre um privilégio ver as obras “face a face”.

O Nascimento de Vênus
Sandro Botticelli (cerca de 1485)
Têmpera sobre tela, 1,72.5 x 2,78.5 cm
Galeria Uffizi, Florença

“Na Natureza nada se Cria, nada se Perde, tudo se Transforma”  Antoine Lavoisier

Com Cabeça Tronco & Membros (alguns)

Não faz sentido nenhum dizer que uma peça escultórica não tem pés nem cabeça, quando não se percebe o seu significado ou mensagem da obra, pois o seu verdadeiro “sentido” nunca se perde, ele está sempre presente mesmo que perca os braços, os pés ou a cabeça.

Nesta última foto podemos ver que a tal cabeça afinal não se perdeu, é como o Lavoisier dizia, na “Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma“, ou seja, obteve-se uma nova composição, que nos obriga a olhar com alguma perplexividade  para o chão, como se de uma obra de arte contemporânea – conceptual se tratasse.

Fotos : J.Machado

Fonte : Wikipédia ; A Nova History de Arte de H. W. Janson ( FCG )  ;

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