Colóquio sobre a obra do Poeta Ruy Belo ” Homem de palavra(s)


 

Literatura: Colóquio internacional dedicado a Ruy Belo  na Gulbenkian

Ruy Belo (1933-1978), nome maior da poesia portuguesa da segunda metade do século XX, é homenageado no colóquio internacional “Homem de Palavra[s]”, que decorreu ontem e hoje (sexta-feira ) na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

O colóquio, que assinala o cinquentenário da publicação do primeiro livro do poeta, “Aquele Grande Rio Eufrates” (1961), conta com a participação de estudiosos da sua obra, mas também de especialistas da poesia portuguesa do século XX e da teoria e crítica literárias, nacionais e estrangeiros.

No encontro — organizado por Paula Morão, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Nuno Júdice, professor da Universidade Nova de Lisboa, escritor e diretor da revista Colóquio/Letras, da Fundação Gulbenkian, e Teresa Belo, viúva do poeta –, refletir-se-á sobre diversas facetas da obra de Ruy Belo, os seus universos de referência e sobre o lugar que ela ocupa na poesia contemporânea.

Este slideshow necessita de JavaScript.

O receio da morte é a fonte da arte

Pensar é estar alguma coisa a mais

pensar é o que sobra da respiração

pensar é o que não nos leva às coisas

pensando se antecipa a própria morte

O receio da morte é a fonte da arte

Excerto do poema “A fonte da arte“, de Ruy Belo lido por Luis Miguel Cintra

in “Despeço-me da Terra da Alegria” foi lido por Luis Miguel Cintra

QUERO SÓ ISSO – NEM ISSO QUERO ” Lido por Rita Blanco

Quero uma mesa e pão sobre essa mesa 
na toalha de linho nódoas de vinho                quero só isso    nem isso quero

Quero a casa de terra à minha volta
 cães altos na noite a minha mãe mais nova           
quero só isso  nem isso quero

Quero a casa do forno onde eu me escondia dos relâmpagos 
e trovões quando um ferro no cesto garantia uma feliz cria à galinha chocadeira 
     quero só isso    nem isso quero

Quero de novo fundir ao lume os soldados de chumbo que no natal me punham no  [sapatinho 
e  tirar chouriço e toucinho do guarda-comidas 
   quero só isso   nem isso quero

Quero fazer pequeninos adobes e construir casas pelo quintal
ver chegar o verão e comermos todos lá fora na varanda de tijolo 
       quero só isso   nem isso quero

Quero uma aldeia umas pedras um rio
umas quantas mulheres de joelhos brancos esfregando a roupa nas pedras 
     quero só isso   nem isso quero

Quero escrever fatais cartas de amor à rapariga dos meus oito anos 
rasgar essas cartas deixá-las pra sempre dentro do tronco oco da oliveira    
quero só isso      nem isso quero

Quero umas cabras um pastor rico um pastor pobre
o leite quente na teta o cabrito morto soprado e esfolado
    quero só isso     nem isso quero

Quero a courela as perdizes no ovo a baba do cuco 
laranjas de orvalho no ano novo colhidas na árvore 
      quero só isso   nem isso quero

Quero dois montes e um paul de malmequeres a cheia na primavera 
a asma o ruído dos ralos as pernas sombrias das raparigas 
    quero só isso     nem isso quero

Quero os espargos os pinheiros bravos o primeiro pôr-do-sol 
as noites de baile no carnaval as bandeiras da safra 
   quero só isso     nem isso quero

Quero que voltem os que morreram os que emigraram 
matar com eles o bicho com aguardente pela manhã antes da pega     
quero só isso    nem isso quero

Quero ver ao vento o véu das noivas apanhar os confeitos nos casamentos
saber pelos papéis  dos registos o  tempo da prenhez palavra misteriosa
   quero só isso nem isso quero

Quero um páteo meu e da sombra e galinhas pedreses e árvores 
uma mina de avencas uma horta uma sebe de cana umas casas caídas 
    quero só isso    nem isso quero


Quero uma enxada uma gadanha calos nas mãos cuspo nos calos 
a cava mais funda da vinha o capataz a fazer o vinho correr    
quero só isso     nem isso quero

Quero ajudar na rega do fim da tarde calcar os buracos das toupeiras 
e dirigir com o sacho a água morna nos pés até aos regos do feijão      
quero só isso       nem isso quero

Quero em dezembro o varejo final da azeitona o búzio a tocar 
a azeitona a cair dos ramos nos panos de serapilheira 
     quero só isso     nem isso quero

Quero o meu pai de chapéu de chuva aberto nos dias de sol 
o meu pai de manhãzinha a lavar-se e a explicar-nos latim e história 
quero só isso nem isso quero

Quero nu em pelota entre todos tomar os banhos no marachão 
os ninhos dos pássaros as andorinhas de asas escuras no céu azul 
    quero só isso    nem isso quero

Quero o pátio da escola a roda das raparigas a cantar à volta do plátano 
o  primeiro  sonho  de amor as  primeiras palavras  gaguejadas trocadas 
com uma rapariga 
   quero só isso    nem isso quero

Quero as feridas nos pés para poder sair à rua descalço 
o pão com conduto entre os meninos pobres no recreio      
quero só isso    nem isso quero

Quero ir ao vale barco a malaquejo à marmeleira
roubar melões jogar ao murro ver nas festas o fogo preso      
quero só isso     nem isso quero

Que quero tanto que quero um mundo ou nem tanto só agora reparo 
quero morder para sempre a almofada quente e densa da terra    
quero só isso      nem isso quero .

O  encerramento do Colóquio esteve a cargo do Prof. Eduardo Lourenço, brilhante orador que abordou algumas das reflexões que Ruy Belo coloca na sua poesia , como seja o Tempo eterno “infinito” e a sua relação com Deus e deus na linha pessoana.

Eduardo  Lourenço começou por lamentar não ter tido a honra de conhecer Ruy Belo pessoalmente, mas que ao longo destes últimos anos começou a conhecer a sua essência e genialidade. Reconheceu também que é uma pena que um (…) ” poeta com a grandeza do Ruy” ainda não seja suficientemente conhecido do grande público português.

Para mim ouvir falar de um dos meus poetas de referência quase durante três horas seguidas, depois de ir a pé sem guarda-chuvas debaixo de enorme torrente de àgua,  até à Fundação Calouste Gulbenkian ouvir o escritor/poeta e critico Vasco Graça Moura , os actores Luis Miguel Cintra e Rita Blanco e por fim o Prof. Eduardo Lourenço foi um banho de cultura que nem dei por a roupa me secar no corpo, tamanha foi a emoção de alegria que o meu coração até cócegas me fazia. São estes momentos que nos fazem esquecer a crise e a merda em que estamos.

Depois desta sessão, e tenho a certeza que não falo só por mim, saímos da FCG todos muito mais ricos.

Lá fora a chuva parou e pude voltar a andar e a ver a agitação da hora de ponta, enquanto caminhava a pensar que  ” O receio da morte é a Fonte da Arte” .

Obrigado Ruy.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s