“FESTIVAL AO LARGO 2011”


FESTIVAL AO LARGO 2011

28 de Julho 2011 ( Quinta-feira)

UMA COISA EM FORMA DE ASSIM

COMPANHIA NACIONAL DE BAILADO

MÚSICA E INTERPRETAÇÃO  :  BERNARDO SASSETTI (PIANO)

COREOGRAFIA DE : CLARA ANDERMATT, FRANCISCO CAMACHO, BENVINDO FONSECA, RUI LOPES GRAÇA, RUI HORTA, PAULO RIBEIRO, OLGA RORIZ, MADALENA VICTORINO, VASCO WELLENKAMP

DESENHO DE LUZ : CELESTINO VERDADES

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O Festival ao Largo é uma iniciativa do Opart, entidade empresarial que gere conjuntamente o Teatro Nacional de S. Carlos e a Companhia Nacional de Bailado e tem como missão a democratização do acesso à cultura erudita pelo público local, nacional e internacional e a promoção de Lisboa como destino cultural. Esta missão passa pela gratuitidade do Festival, reforçando a atratividade dos públicos, eliminando uma das tradicionais barreiras à fruição cultural de qualidade.

Este Festival decorre ao ar livre no Largo de São Carlos, de entrada gratuita com já foi referido, e vai já na sua terceira edição. Trata-se de uma festa estival única no panorama cultural em Portugal, pela sua dimensão, concentração e qualidade.

O Festival decorreu de 30 de Junho a 31 de Julho e animaram as noites de verão de Lisboa e no Chiado, com a apresentação de 19 espectáculos onde a música sinfónica, coral, e de dança, contou com a participação de músicos, cantores, bailarinos, maestros e coreógrafos.

Alexandre O'Neill“”A poesia é a vida? Pois claro! Conforme a vida que se tem o verso vem – e se a vida é vidinha, já não há poesia/ que resista (…) A poesia é a vida? Pois claro!/ Embora custe caro, muito caro, e a morte se meta de permeio”.  Alexandre O´Nell

Uma coisa em forma de assim” , livro de crónicas de Alexandre O´Nell (19.12.1924 – 21.08.1986) editado em 1980. Aqui fica um pequeno excerto dessa crónica :

Os Convencidos da VidaTodos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.
Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força.
Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?

(…) No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível. Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil.
Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em frente e para cima. A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro.
Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida – da sua, claro – para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal… sempre foi.

Alexandre O’Neill,

“Uma Coisa em Forma de Assim” foi um grande espectáculo levado a palco por nove coreógrafos e o encontro da música e interpretação de Bernardo Sassetti.

Cheguei bastante cedo, para estudar o local do espectáculo para obter o melhor ângulo para captar os movimentos sem ter obstáculos.

A fotografia de dança é sempre um desafio e exige uma grande coordenação entre os movimentos e a exposição. A iluminação é um problema e uma dessas limitações, por causa dos baixos níveis de luz ou pelo contrário, pode gerar sobreexposições.

Enquanto as pessoas iam chegando, estive um pouco à conversa com o Bernardo Sassetti, que entretanto subiu ao palco para com os técnicos de son adaptarem o piano á acústica adequada para o Largo. De seguida deu para ver a equipa da limpeza a actuarem sobre o solo do palco, enquanto o técnico afinador de longa data, ía fazendo ouvir o teclar de nota a nota, até o piano não pedir mais.

Uma das vantagens dos espaços ao ar livre é podermos sentir a reação (feedback) do público, e irmos ouvindo o que dizem, e deu para perceber que muitas das pessoas já eram repetentes nestas andanças, e que tinham uma grande espectativa para esta noite. Quase todas já conheciam o Bernardo Sassetti, até porque no dia 14 de Julho também tinha tocado com o Mário Laginha e com dois percussionistas, Elizabeth  Davis e Pedro Carneiro em “Diálogos,Pianos&Percussão II “.

As luzes acenderam-se, olhei para o relógio do S.Carlos, e reparei que eram 09h10, e logo começei a fazer os primeiros testes de exposição e a verificar como a máquina reagia à luz do palco. A poucos minutos do início do espectáculo já só se viam cabeças no ar, enquanto as conversas se punham em dia.   Tentei saber qual o número de espectadores que ali se encontravam. Sei que alguém que tinha estado presente noutros anos, mandou um número para o ar. Uma coisa, eu sei. Estava complectamente cheio, isto porque tive que me mudar, e tive uma enorme dificuldade para me deslocar por entre a numerosa assistência. Minutos antes de  começar, á minha frente, na primeira fila estavam quase todos os coreógrafos e assistentes, só não vi o Vasco Wellenkamp.

Quando finalmente tudo começou, já estava devidamente posicionado junto a uma das colunas de son do lado direito do palco. O ângulo era óptimo, não fosse essa dita coluna me cortar a perspectiva e visibilidade ao nível do solo. Lá me ía deslocando para um lado e outro, sempre a procurar a sequência do bailado.

Perante este problema, lembrei-me do que o fotógrafo inglês Chris Nash disse recentemente numa entrevista a uma revista, “ o importante na dança, é saber o momento certo de captar a imagem e decidir em que instante de uma sequência se deve premir o botão”.

Na minha opinião, foi muito interessante poder assistir pela primeira vez a uma experiência de interacção entre bailarinos e um músico/pianista que esteve sempre presente do princípio até ao fim. Bernardo Sassetti compôs e interpretou, mas não se limitou só a tocar a peça ao vivo, ele  também conseguiu dirigir, marcando os andamentos e ao mesmo tempo estar lado a lado com os bailarinos em palco.

A sua presença, tornou-se imprescindível.

Foto: O Movimento e “As Mãos”

Não é a mesma coisa, estarmos a assistir a uma peça como esta , e  ouvirmos uma gravação. Não é a mesma coisa, até porque o Bernardo, mesmo seguindo a partitura, ele ía seguindo os movimentos e impulsos que a dança , quando  executada por grandes bailarinos consegue transmitir, e tocar-nos de uma forma tal, que quase ficamos suspensos no ar.

Aqui ficam algumas dessas fotos, deixando aqui os meus parabéns a todo o elenco de bailarinos, assistentes, coreógrafos, o designer de luz,  figurinistas e restante equipa do CNB.  Ao Bernardo Sassetti pela sua grande genialidade  e criatividade, e por fim para a Opart, que em muito contribuíram para este grande e maravilhoso espectáculo( gratuito), coisa,  que nos dias de hoje vai sendo muito raro.